Tendência é valorizar áreas comuns e pagar pelo uso

Publicado em 25 de setembro de 2017 por Vanessa Pessoa


(O Estado de S.Paulo – 24/09/2017)

A nova leva de apartamentos compactos foi uma saída encontrada pelo mercado imobiliário para oferecer moradia acessível na melhor localização possível. Os preços anunciados, a partir de R$ 99 mil a unidade, são sedutores, especialmente por tratar-se de um imóvel novo no centro da cidade. Mas, diferentemente das quitinetes dos anos 1960, que ofereciam entre 30 e 40 m², estes mal comportam duas pessoas. Como foi possível que encolhessem tanto?

Os microapartamentos dos anos 2000 se multiplicam na velocidade em que se acentuam algumas tendências urbanas, como a retomada dos espaços públicos. Partindo do princípio de que só é viável morar em tão pouco espaço se der para passar boa parte do tempo fora, a rua se torna uma importante aliada. Pelo mesmo motivo, os edifícios de miniquitinetes oferecem facilidades e espaços de convivência nas áreas comuns. Em São Paulo, iniciativas como a Paulista Aberta, o Parque Minhocão, as hortas comunitárias e as associações em defesa de praças dão a medida da disposição das pessoas em conviver e aproveitar espaços compartilhados.

Outra tendência que beneficia os studios é a cultura de pagar pelo uso, e não pela propriedade. Aplicativos de transporte em carros particulares e as bicicletas compartilhadas são exemplos. Assim, os studios configuram uma opção atraente para locação tradicional ou rápida, como a oferecida pelo Airbnb. Há ainda os “storages”, edifícios de guarda-volumes que complementam a falta de espaço nas novas residências e se disseminam por diversos bairros – assim como coworkings e cafés com Wi-Fi complementam a falta de um escritório em casa.

Mas claro que tudo isso só faz sentido em um contexto econômico que tornou mais difícil o acesso ao crédito imobiliário e reduziu drasticamente o poder aquisitivo do brasileiro. Apartamentos supercompactos estão mais para uma solução pontual, resolvendo o problema de quem precisa daquela localização por um certo período, do que para a materialização do sonho da casa própria. Para muita gente, morar deixou de ser um fim em si mesmo e se tornou um meio para reduzir custos e tempo de deslocamento, se manter nos estudos ou no emprego e garantir alguma qualidade de vida. Em uma metrópole como São Paulo, onde o trânsito faz o que é perto virar longe e o que é longe ser impraticável, as microquitinetes são um importante atalho para a vida prática.


SIGA-NOS NO TWITTER